domingo, 20 de julho de 2025

A Harpia (conto de Alma Welt)

Sou visitada em meu ateliê por um fazendeiro, homem interessante, de aspecto citadino, nada matuto, quase belo e com um jeito cosmopolita. Seu nome é Antônio. Depois de uma conversa agradável, em que demonstrou seu entusiasmo pelas coisas da natureza, mais do que pelas simplesmente rurais, revela-me o motivo de sua visita: quer que eu pinte, ou desenhe uma ave de sua estimação, muito especial, sobre a qual faz um certo mistério. Convida-me para passar uma temporada em sua fazenda, onde me dará todo o suporte para o “projeto”. Estranhei que ele assim chamasse a encomenda, que me parecia fácil à primeira vista, antes de conhecer, naturalmente, o objeto do “portrait” (uma simples ave, pensava eu). Ah! Como eu poderia imaginar o que se passaria então, mesmo sabendo de antemão, que quando me tiram do ateliê , sou entregue às aventuras mais insólitas... Passados alguns dias de preparativos, em que além do meu saco de viagem, junto uma parafernália de pintor, com telas, papéis, tintas, pincéis potes, etc, afinal um motorista vem buscar-me em meu prédio. Desço com dificuldade, arrastando pelo elevador e corredores, a tralha toda, e passando pela portaria, sou observada pelo porteiro que agora mostra-se mais solícito e humilde. Parece rendido à aceitação do meu estranho ( para ele ) estilo de vida . Ajuda-me a pôr a bagagem, junto com o motorista, na grande Van em que faremos a viagem. O motorista, Jeová, é um negro enorme, mais alto que uma porta. Tem um riso franco, fácil, branco como o marfim da África. No caminho, sob meu interrogatório, vai me contando da fazenda, de sua reserva florestal, seu belo açude e do aviário: mania e paixão do seu patrão. Quanto a esse, Jeová, por discrição, quase nada revela, senão a sua própria devoção e fidelidade, bastante sugestivas. Durante a viagem que me pareceu muito longa, a certa altura, eu quis passar para o banco de trás a fim de dormir o resto do percurso, o que fiz com um sentimento de segurança total, pois o Jeová, além de excelente motorista era o guarda-costas ideal: poderia como uma criança dormir em seus braços... .............................................................................................. Sonhei durante todo o resto da viagem. Lembro-me de que me vi dentro de uma enorme estufa envidraçada, parecendo uma imensa gaiola de arame, em que estranhamente não havia flores. De súbito o teto da estufa pareceu abrir-se e um avejão, indefinido, desceu sobre mim estendendo grandes pés de ouro escamado, com garras de aço negro. Encolhi-me no solo da estufa, agora um aviário, e fechando os olhos como o sortilégio das crianças, vi-me nos braços de um homem maravilhoso mas do qual não avistava o rosto, cercados por um espantoso voejar de pequenos pássaros, beija-flores, canários, coleirinhas, etc. Aninhei-me nos braços do meu salvador botando a cabeça mais próxima do seu peito e ouvi-lhe as batidas apaixonadas. Senti um violento cheiro de homem e acordei. Estava no colo de Jeová sendo retirada da Van como uma criança, diante de uma bela casa moderna, térrea, avarandada, cercada de magníficas árvores e jardins. Acordada, deixei-me levar até onde Jeová quis e este depositou-me num magnífico sofá da sala envidraçada, e dando aquela risada de Pai Tomás, disse-me que eu dormira mais de duas horas, e se eu queria tomar um banho antes do almoço, etc. Claro que aceitei. A suíte e o banheiro pareceram-me maravilhosos e acolhedores. Depois, refrescada e disposta, fui observar a sala e o jardim enquanto esperava o meu hospedeiro. Andando em volta da casa avisto logo o aviário e encaminho-me para lá. Fico ali, encantada com miríade de pequenos pássaros que me saúdam esvoaçando excitados dentro de uma imensa gaiola, onde estão as pequenas jóias. Muitas outras se avistavam por ali. Diante da gaiola dos pavões permaneço emocionada, pois os machos logo poem-se a me exibir seus leques adornados, despertando-me antigas lembranças... De repente, sinto atrás de mim, a respiração de alguém e voltando-me encontro o sorriso de Antônio que saúda-me e imediatamente pegando-me pela mão, leva- me pelo labirinto de gaiolas do aviário, enquanto pergunta-me sobre a minha viagem, se estou bem instalada, etc. Subitamente cala-se e aponta-me com olhar uma grande gaiola, uma verdadeira jaula com uma enorme cúpula arredondada, atravessada por um alto poleiro no qual uma sombra imensa estava pousada, imóvel. Temerosa, tensa, permaneci extática diante da jaula tentando entender aquela massa cinza prateada, com áreas brancas, ondulada pela brisa. Parecia acéfala, até que, com um movimento rotatório, seu rosto e imenso bico apareceram vindos do lado de trás . Uma coroa, como um cocar de prata com pontas pretas eriçou-se e os grandes olhos negros com um brilho abissal, fuzilaram-me com a mesma afilação de seu bico de gancho, de aço negro . Seu torso ergueu-se um momento, expondo as pernas calçadas, até a metade, de branco, com canelas e pés grossíssimos, amarelo ouro, garras como punhais curvos que prendiam-se ao forte poleiro como anéis de ferro e sob elas, um rato morto ensangüentado. Seu peito branco e macio, emplumado, exibia um ligeiro carijó que salientava o aspecto prateado da ave . Eu estava diante de um animal mítico. Esse pássaro não poderia existir. Ele vinha do fundo imemorial do inconsciente. Remontava à Grécia Arcaica, à Idade de Ouro ou dos Heróis. Seu silêncio continha o ronco inaudível de um baixo contínuo, como o prefixo musical de um filme de terror. Eu estava fascinada... e horrorizada. Movi-me lentamente em torno da gaiola acompanhada pelos olhos fixos do animal, que para isso movia a cabeça sem mexer o corpo, como uma peça giratória independente, capaz de um giro de 360 graus, pareceu-me. Não havia jeito de olhá-la pelas costas, ela não permitiria: rapinante perpétua, em constante predação, seus olhos e adagas negras dilaceravam meu imaginário. Ouvi a voz de Antônio , dizendo: — “Esta é a Harpia, meu orgulho e culminância da minha coleção... É ela que você deverá retratar... Para isso você tem o tempo que quiser. Ela estará aqui posando para você. E voando, também, nos horários de treinos. Pois eu a domestiquei para a caça, como um falcão. Você verá... Tenho de fazer musculação todas as manhãs para sustentá-la em meu braço, com seu capuz especial que mais parece uma máscara de Veneza. Amanhã bem cedo cavalgaremos, você e eu, com ela em meu braço, até uma reserva florestal que tenho aqui e você a verá caçar macacos e trazer-nos, como na antiga arte da falcoaria, só que maior e mais forte, como cabe à nossa raça tropical.” Olhei-o nos olhos, sem saber o que dizer . Antônio me surpreendera e agora eu queria enxergar o ponto cruel em seus olhos, que aquilo que ele descrevera me sugeria . Era difícil perceber no homem civilizado, esta veia de cavaleiro antigo, falcoeiro, sanguinário, naqueles olhos francos, meigos; naquele seu cabelo bem penteado, de comportadas têmporas esbranquiçada, na fala mansa e grave. Disse-lhe que sim, que eu o acompanharia. Estava hipnotizada pela ave e a serviria também, para que ela me mostrasse toda a sua potência e toda a beleza do seu vôo que eu já imaginava. Neste momento, ela mudou de lado no poleiro e para isso abriu um pouco as asas para equilibrar-se sem soltar o rato, o que me permitiu ver as listas negras nas suas pontas e na parte interna branca do dorso prateado. Eram imensas e a mais leve brisa levantava as pontas emplumadas de suas penas, o que lhe dava o aspecto macio de um trigal ao vento, mas que fosse prata, pois ouro eram suas pernas... Afastamo-nos afinal, em direção à casa, para o almoço, ele dando-me o braço no qual me apoiei, pois sentia-me estranhamente fraca, o que atribuí à fome e à viagem. Antônio mostrou-se um anfitrião requintado. Serviu um maravilhoso vinho tinto para acompanhar o assado, garantindo-me que esse não era de macaco, dando uma gargalhada alegre. Sorri meio amarelo, pois estava ficando incomodada com a imagem do bichinho ensangüentado nas garras do monstro. Preferi mudar de assunto . Após o café e o licor, Antônio abriu uma caixa de charutos, ia me oferecer, mas com um sorriso recolheu-a, dizendo: — Sou um homem à antiga: não oferecerei charutos a uma dama, embora isso já esteja acontecendo nos clubes especializados, por aí. A você oferecerei um bombom de licor. De qualquer maneira, Alma, não posso imaginá-la baforando. Você é a mulher mais delicada que tenho visto em muitos anos, e asseguro-lhe, isto é um cumprimento. Sorri e apanhei o bombom. .............................................................................................. No dia seguinte, levantei bem cedo e após um rápido café, peguei papel, lápis, material de desenho. Também pincel japonês e tinta nanquim para tentar um “sumiê” rápido da minha ilustre modelo. Ao aproximar-me da jaula, ela já me fitava há muito tempo. Fiquei ali olhando-a, olhando-a . Absorvendo suas formas para depois esquecê-las, apagando-as, para, com a mente em branco, desenhá-la em segundos, com os golpes fatais do pincel japonês. Neste momento ouvi a voz muito grave do Jeová: — Dona Alma, se a senhora quiser, pode entrar na jaula, eu garanto. Assim poderá ver ela bem de perto, se precisar. Surpresa, disse-lhe num impulso, que sim, que queria entrar. Ele então pegando uma chave do molho, abriu o cadeado e ofereceu-me a porta aberta, que adentrei imediatamente. Aproximei-me lentamente da Harpia e esta foi agachando-se cada vez mais no seu poleiro, com a cabeça mais baixa e as asas palpitantes quase querendo abrir-se. Seu olhos fuzilaram os meus e o seu cocar eriçou-se. Tive um súbito arrepio (a passagem de um anjo) e voltando- me para trás dei com o Jeová em postura de alerta, tendo nas mãos uma comprida vara, cuja ponta ostentava perpendicularmente uma rede estendida numa armação circular. Dei um pulo instintivo e corri para fora da jaula. Ofegante, assustada, gritei: — Oh! Jeová, o que você fez? Para quê essa rede ? E ele: “Dona Alma, é para sua segurança. Para isso estou aqui. Nunca se sabe. Ela poderia saltar... em seu rosto.” Quis bater-lhe. “Jeová! Jeová!” Gritei indignada. “Você não podia fazer-me correr esse risco, não vê?!” Saí correndo dali. Tinha perdido a confiança em Jeová e isso me deixava estranhamente desamparada naquela fazenda. Agora o medo se insinuara e eu já não me sentiria à vontade. Antônio, meu hospedeiro, embora gentilíssimo me parecia agora vagamente sinistro. Jeová veio atrás de mim, balbuciando desculpas, consternado, reconhecendo sua culpa, implorando meu perdão. Dizia: — Senhorita Alma, não me perdôo, agora compreendo minha tolice. Mas, juro, eu protegerei a senhora de tudo, o resto da minha vida, se a senhorita permitir...” .............................................................................................. Mais tarde, Antônio, apareceu em traje de montaria e convidou-me a acompanhá-lo no treino, como ele chamou eufemisticamente a caçada. Fiz um esforço para superar minha confusão de sentimentos e meu mal estar. Eu devia seguí-lo, não queria passar por uma femeazinha melindrosa diante do garboso cavaleiro medieval. Arranjou-me umas botas e montamos os cavalos que nos foram trazidos até a porta por Jeová, que também montado, carregava a Harpia encapuzada, em seu enorme braço enluvado. Passou-a ao patrão, que calçara ele próprio uma luva de couro grosso que chegava até o cotovelo. Era impressionante ver o falcão gigante com aquela máscara sem furos para deixá-lo cego e quieto, pousado nos braços couraçados de homens fortes. Admirei-lhes a coragem e determinação um pouco primitivas, que me atraíam estranhamente. Há fortes atavismos entre homens e mulheres... Cavalgamos, os três, por um bom trecho de estrada poeirenta, até sairmos por um prado em direção a uma floresta que se avistava ao longe. No meio do prado ainda a uma grande distância da floresta, Antônio tirou com cuidado e destreza o capuz da Harpia e soltando uma correia fina de couro que a prendia à sua luva pelo pé, impulsionou-a no ar. Ela abriu as imensas asas e alçou-se, sem um grito. Seu vôo majestoso era indescritível. Mais planado que outra coisa, dirigia-se à floresta, atingindo logo uma grande altura em correntes ascendentes, para pairar sobre a mata com sua visão estereoscópica. Depois, lá de cima, fechando ligeiramente as asas mergulhou a uma enorme velocidade sobre as copas das árvores mais altas. Era fantástico! Desapareceu de nossas vistas. Após alguns segundos emergiu com um estranho fardo nas garras. Um macaco já morto, trespassado pelas suas adagas curvas. Voou até nós enquanto Antônio saboreava uma taça de vinho servida por Jeová que carregava em seu cavalo sacolas misteriosas. Este estendeu-me uma taça cheia mas eu estava perturbada, achando aquilo tudo excessivo. Jeová recolheu o macaco ensangüentado, de maneira sincronizada enquanto repassava ao patrão a ave despojada de sua presa. Pensei no destino final do animalzinho... O que fariam com aqueles tristes despojos? Seriam o prêmio da Harpia, sua refeição? Não quis mais ver. Estava louca para sair a galope por aquele prado. Antônio parecia-me agora um homem cruel, embora esse pensamento encontrasse ressonâncias contraditórias em minha alma. Bem, eu estava ali com um propósito, uma missão, um trabalho. Haveria de cumpri-lo. .............................................................................................. Alguns dias se passaram e eu esboçava abundantemente, fazendo belos desenhos da águia em diversas posturas que eu observara. Cabeças, garras, asas, porções definidas de sua maravilhosa anatomia. Sentia que a conhecia bem por fora. Mas, e por dentro? Era necessário conhecê-la? Eu tinha medo. Conhecia minha própria sensibilidade exacerbada que poderia me conduzir ao tal delírio da razão, que produz monstros... Mas, a verdade é que aquele animal, mais que qualquer outro, era todo o seu exterior, suas feições e sua anatomia. Estava todo ali, na sua corporificação, na sua exterioridade intensa, fruto da exalação contínua de sua rapinância íntima, contumaz, perpétua e arquetípica. Não poderia descrevê-la por menos. Estava pronta para o desenho definitivo. Lembrei-me da fábula do cavalo do Imperador: “... mas Mestre, se era tão fácil fazê-lo, por quê não o fez antes? — “Vossa Majestade me perdoe, precisei desenhar mil vezes o vosso cavalo, para poder fazê-lo agora com dez traços...” Então, ocorreu um incidente que precipitou os acontecimentos. .............................................................................................. O Mercedes negro chegou, pomposo, e estacionou em frente à casa, no cascalho. O motorista branco desceu e abriu a porta para uma imponente mulher madura, mas ainda bela, elegante, num estilo nitidamente europeu. Entrou na casa enquanto o empregado descarregava as malas. Encontrando-me na sala, tirou as luvas puxando-as meticulosamente pelos dedos e estendeu-me a mão, sem um sorriso, dizendo: — Sou Chiara, a mulher de Antônio. Não me esperavam, não é mesmo? Quem é você, mocinha, posso saber? Senti-me dentro de uma daquelas situações falsas, que tanto detesto, mas esforçando-me para não perder o “aplomb,” respondi: — Sou Alma. Uma pintora, a senhora sabe... Fui contratada pelo seu marido para retratar a Harpia.. . — Contratada, não é? Que interessante! Antônio sempre foi original... A Harpia ainda está viva? Esperava encontrá-la empalhada num poleiro no escritório. Seríamos todos mais felizes, podes crer... Neste momento dei-me conta de que em nenhum instante me ocorrera perguntar pela situação de Antônio, se era casado, solteiro ou separado. Havia uma mulher na sua vida? Nem isso me ocorreu. Eu definitivamente, não era como as outras mulheres... Mas, também, eu estava ali de absoluta boa fé, acreditando na minha missão, no meu contrato de artista, se preferirem. Serei tão ingênua, afinal? Então, haverá alguma coisa por trás do convite de Antônio? Não, não posso crer. Sou uma artista reconhecida, já não sou mais uma menininha, muito menos uma fêmea qualquer...Não, esta mulher não vai infectar-me com sua maldade, com sua vulgaridade disfarçada de elite, de nobreza decadente. Se ela passar dos limites pularei no seu pescoço! — Dona Chiara, o prazer é todo meu. Seu marido falou-me muito da senhora e advertiu-me para não mostrar-lhe meus esboços já que a senhora tem horror ao animal. Mas é compreensível, não se trata de um mascote qualquer. Eu diria mesmo que aquela ave é um pouco sinistra, concordo com a senhora. Mas ainda assim é uma criação de Deus e talvez sua obra prima, depois do tigre e do cavalo. Mas deixe-me buscar-lhe um drinque, a senhora acabou de chegar... Chiara olhou-me, intrigada, procurando descobrir se eu era simplória ou irônica mesmo. Pediu um uísque com gelo, e servida, só então sentou-se com aquele fabuloso cruzamento de pernas que necessita três gerações de salão para se realizar com classe. Ainda estava disposta a intimidar-me. Fomos interrompidas em nosso sutil duelo pela entrada de Antônio que com um gesto de surpresa, logo superado, curvou-se para beijar o rosto de sua mulher que o mediu de alto a baixo, dizendo: — Antônio, você parece ótimo, não há meio de envelhecer. Nem de acalmar-se, não é mesmo? Sempre surpreendendo... Nunca me alerta sobre suas visitas. Ainda bem que este ano temos Alma, que além de linda é uma artista talentosa, quero crer. Mas haverá tempo para nos conhecermos melhor. Vim para ficar. Espero somente que Alma esteja bem instalada no quarto de hóspedes. Você está, querida? Antônio soltou um suspiro logo seguido de uma gargalhada. Disse: — Chiara, Chiara, você é incrível! Não a esperava, confesso, afinal sua última carta chegou ontem, de Monte Carlo. E eu nem pude acabar de lê-la... Talvez no final dela você falasse no seu retorno, não é? É o que dá ler cartas tarde da noite. Adormeci, me desculpe... Mas, de qualquer maneira, estamos aqui reunidos. Alma é uma nova amiga e lhe fará alguma companhia, não é mesmo, Alma? Mas não vá ocupá-la muito, pois Alma é uma artista muito concentrada e séria. E sei que não brinca em serviço... Mas, e você? E como vai sua mãe? Ficou em Mônaco? Minha querida sogrinha... Chiara lançou-lhe um olhar de esguelha, indescritível. Percebi estar no meio de uma guerra surda que já durava há anos. Aquilo me incomodava. Queria somente desenhar, fazer a minha obra e cair fora. Que diabo!.. Sempre me metendo em encrenca... Pedi licença, levantei-me e fui visitar os pássaros. Fiquei um bom tempo observando os passarinhos que pareciam me reconhecer. Vinham me saudar, e um deles pousou no meu dedo através da tela. Aproximei meus lábios de seu bico e ele correspondeu, com uma bicadinha, deixando-me encantada. Mas não quero ser piegas. A Harpia também me esperava com o seu arsenal de posturas agressivas, sua violência latente. Isso me fez meditar no estranho balanço da vida. Ouço então a voz de Jeová atrás de mim, mais uma vez dizendo: — Dona Alma, quando a senhora terminar o retrato do bicho, e tiver que ir embora, queria pedir-lhe um desenhinho, uma coisinha que me lembrasse a senhora. Um daqueles rabiscos que a senhora fez tantos, da águia. Para mim aquilo parece a sua letra, como uma carta, a senhora me entende. Nunca vi coisa igual... Não que eu saiba ler muito bem, mas a alma de uma pessoa pode estar toda ali, nunca tinha pensado nisso... Fiquei comovida, pousei minha mão no seu braço enorme, capaz de matar um touro e senti toda a delicadeza daquela alma sensível e sutil, dentro do corpo de gigante rústico. .............................................................................................. Chiara está tentando se aproximar de mim, como era de se prever. Afinal, somos duas mulheres aqui, somente, sem contar com a empregada que é tão discreta e anódina que não ocupou meus pensamentos a não ser por seu excelente tempero. Mas voltemos a Chiara. Esteve fechada em seu quarto por dois dias. Um mistério!.. Como alguém pode trancar-se assim num lugar como este, de maravilhoso cenário natural? E com este sol ainda por cima! Mas Chiara saiu do quarto aparentemente mudada, pelo menos em relação a mim. Veio ao meu encontro diante da jaula da Harpia e observou-me desenhando por uns momentos. Depois suspirou e pondo a mão no meu ombro disse: — Alma, me desculpe. Peço-lhe perdão pelo nosso encontro desajeitado. Apague tudo, sim? Como um esboço mal feito da nossa relação que pode ser tão bonita... Veja, eu dou a mão à palmatória. Você é encantadora e eu não tenho motivos para odiá-la, muito menos para menosprezá-la. Mas quero que você me conheça e saiba tudo o que sofri por esse homem, neste lugar e fora daqui, por esse mundo todo. Venha comigo até o meu quarto. Quero mostrar-lhe algumas coisas. Você compreenderá... Acompanhei-a prontamente. Em seu quarto abriu uma gaveta e tirou do fundo maços de cartas, pacotes de fotografias, bilhetes e todo aquele rastro que as vidas costumam deixar, indefectivelmente. Desvendou-me o significado de certas passagens escolhidas, enquanto eu, constrangida e curiosa ao mesmo tempo, ia descortinando o drama passional daquela dupla. Ah! Os bilhetes, como eram sugestivos!.. E as cartas, que ainda ostentavam vestígios de odores e de lágrimas. Fotos aparentemente inofensivas, que desveladas por ela mostravam o seu poder corrosivo, sua violência oculta. Versos, súplicas, ameaças, o desamparo de vidas entregues às paixões de si mesmas, tão sem rumo, tão sem ideal...e no entanto, tão cheias de amor e dor reais. Saí daquele quarto meio “siderada”, bastante confusa. Sentia-me triste, tinha mergulhado um pouco no drama conjugal alheio, inesperadamente. Estava ficando de alguma forma envolvida, não sei bem por quê...talvez por empatia. Tinha me aproximado de Chiara, e compreendia agora o seu ressentimento, sua amargura de mulher ferida pelo amor de sua vida. Naquela noite, a casa estalava em minha insônia, e julguei, na penumbra do meu quarto, avistar a sombra da Harpia me observando, na parede fantasmagórica. Pensei em abandonar o projeto, voltar para o meu ateliê e afastar-me daquele triângulo com seu vértice desumano. Foi uma longa noite, onde minhas dúvidas e perturbações faziam-me ouvir estranhos gritos de aves e o silêncio aterrador da Harpia. Incapaz de conciliar o sono, saí pela porta envidraçada que dava para a varanda inundada pela luz da lua cheia e debrucei-me na grade observando o jardim, que palpitava de cantos noturnos de grilos e sapos. Vagalumes dançavam suas luzinhas encantadoras, e senti-me melhor que no quarto. Estava me apaziguando, quando percebi um vulto que cruzava o jardim. Chiara, de camisola branca vagava entre as árvores e os canteiros, descalça, nitidamente sonâmbula. Dirigia-se ao aviário, o que me fez estremecer, com uma súbita apreensão. Pensei em chamá-la, mas lembrei-me do que dizem sobre acordar sonâmbulos e resolvi segui-la. Quase a perdi de vista, mas, como supunha, encontrei-a frente à jaula da Harpia. Aproximei-me por trás e permaneci parada e em silêncio. Ela voltou-se, após alguns segundos e caminhou em minha direção parecendo não ver-me e passou por mim dirigindo-se à casa onde penetrou pela varanda. Fiquei alguns minutos espreitando e com o coração apreensivo, voltei para o meu quarto. .............................................................................................. Acordei com a ressaca da noite mal dormida. Antônio me esperava na cozinha para o café da manhã. Estava, como sempre, impecável, em seu estilo vigoroso e saudável de guerreiro ocioso. Dos cabelos bem penteados às botas de montaria perfeitamente engraxadas. Após uma alegre saudação matinal em que seu olhar demorou-se um segundo em minhas olheiras, convidou-me a percorrer com ele as suas terras. Suspeitei que queria uma oportunidade para falar-me confidencialmente. Sempre me cabe esse papel e não posso furtar-me a ele. Na verdade sou boa ouvinte pois não tenho veleidades de conselheira. “Se conselho fosse bom...” Considero-me apenas uma testemunha compassiva dos dramas alheios. Mas eles mexem demais comigo e me fazem sofrer, coisa que desconserta um pouco os protagonistas. Quanto a Antônio, parecia preocupado, mas não propriamente um sofredor. Tomamos a estrada a pé, assim poderíamos observar melhor a paisagem e conversar... Antônio olhava em volta com aquele olhar de rei guerreiro que inspeciona os seus domínios. De repente, sentou-se em um toco diante da maravilhosa paisagem, observando o vôo de um gavião. Pôs a mão em aba sobre os olhos, com aquele ar de conhecedor. Mas seu silêncio anunciava o começo de seu desabafo, que previ: — Alma, você viu. Tentei ser conciliador. Já fiz tudo para redimir-me diante de Chiara. Mas seu ressentimento persiste. Quer tomar-me a mim, como uma espécie de castigo. Quer a minha alma. Parece identificá-la com a Harpia, e gostaria de vê-la aprisionada para sempre, ou morta. Quer humilhar-me e não aceita desculpas altivas. Todas as mulheres são assim? Não, não precisa me responder. Você certamente não é assim. Você parece um anjo, intocado por esses dramas humanos, mas cheia de compaixão. Eu a admiro, Alma. Com você por perto quem sabe me ocorra, como uma inspiração, o caminho a tomar. Mas... diga-me alguma coisa. — Antônio, está na minha natureza, somente a capacidade de identificação. Não tenho o dom do julgamento. Diante de você penso e sinto como você, com a mesma confusão. Creio, às vezes, não ter personalidade alguma. Diante de uma árvore, sou a árvore, e das estrelas, uma estrela. Das crianças então... Todavia, um núcleo em mim persiste, que não permite desintegrar-me. É ele que me diz o que fazer e o que dizer, diante da dor alheia. Ele me diz agora: leve sua mulher daqui com você, e derrame sobre ela a sua ternura contida. Afaste-se desta Harpia, por mais maravilhosa que você a considere. Ela se tornou o símbolo da sua discórdia, e isso não tem mais jeito, no que diz respeito a ela. Você pode salvar seu casamento, se isso o interessa. Chiara parece merecer essa chance. Ela o ama demais e nunca lhe ocorreu traí-lo para vingar-se. Tudo o que faz é debater-se em sua dor, e odiar aquele animal, como se fosse ele que os separasse. É o que vejo, claramente. Se ela permanecer aqui, atentará mais cedo ou mais tarde contra aquela pobre ave, e isso será desastroso. Na sua impotência diante do muro que ergueu-se entre vocês, ela o identifica com a jaula do aviário. Vi o seu olhar de sonâmbula. Não quero pensar na possibilidade dela querer transpor as grades... Saiam daqui, juntos, o quanto antes... É tudo que lhe posso dizer. Antônio olhou-me, por um momento, como se eu fosse louca. Depois suspirou e sorriu. — Alma, Alma, você é artista, vê símbolos em toda parte. Sou um homem objetivo, tenho minha fazenda para cuidar, e minhas aves são apenas meu hobby. Não posso ausentar-me agora. Chiara não faz mais que viajar, há anos. É uma fuga, eu sei. Mas fugir com ela?.. Seria levar conosco essa jaula de que você fala... Olhei Antônio nos olhos, reconhecendo a sutileza de sua última afirmação. Mas a idéia de que deveriam afastar-se daqui, juntos, persistia em meu espírito. Uma sensação de desastre iminente, afligia-me, apertava o meu coração. Ah! Por que tenho de envolver-me sempre?.. Sou impotente sobre o meu Destino, quanto mais sobre o dos outros. Mas quando vejo dois amantes infelizes, quereria poder uni-los, destruir as barreiras que embora fortes, me parecem sempre fúteis. Não deveria ser o amor, a própria resposta para tudo? Voltamos, andando em silêncio, em direção à casa. Antônio, voltou-se para mim, sorriu e afastou-se, em direção ao aviário. Eu que pensava estudar o Monstro, adiei para a tarde o trabalho. Encontrei Jeová em frente à casa acabando de selar dois cavalos. Percebi que Antônio tinha desistido de vez de levar-me às caçadas. Tinha visto minha repulsa à crueldade. Eu teria a manhã ociosa, e decidi fazer companhia à Chiara. Encontrei-a na cozinha, tomando café. Estava impecável, como Antônio. Admirei-lhe a beleza um tanto pálida e seus magníficos cabelos ondulados. Seus olhos muito negros contrastavam com o castanho mechado de ouro de seus cabelos, e suas belas mãos, pareciam acostumadas às torradas com caviar, embora ela estivesse passando manteiga. Saudou-me com um beijo à distância e ofereceu-me uma torrada. Fiquei ali com ela, fitando-nos demoradamente nos olhos, enquanto ela mastigava elegantemente, de maneira indescritível. Seu olhar oscilava da malícia à cumplicidade, sem desviar-se dos meus. Pensei: será esta mulher um tanto fútil? Parece estar brincando... Nada entre esses burgueses é totalmente sério. Estarão zombando de mim? Bem, entrarei no jogo, somente enquanto não houver armas de verdade... Levantamo-nos da mesa e Chiara abraçou-me para caminharmos no jardim. Andamos abraçadas, enquanto Antônio e Jeová afastavam-se à cavalo, com a águia no braço enluvado do gigante negro. Antônio voltou-se, de longe, e olhou-nos por alguns segundos. Chiara soltou-me o ombro e fingiu voar pelo gramado com os braços abertos, num círculo que fechou em minha direção, com as mãos em garra imitando o bote da águia, com um riso cristalino. Seus dedos agarraram-me pela cintura e jogaram-me ao chão. Rimos como crianças, emboladas sobre a grama, mas eu me senti um pouco desconfortável com a brincadeira, pois percebia-lhe um tom irônico. Que queria ela com isso? Serei eu o macaquinho destes dois farsantes? Levantei-me e corri para a casa, enquanto Chiara chamava-me aos gritos e gargalhadas. Tranquei-me em meu quarto para meditar. O que realmente se passa entre esse casal? Qual a próxima jogada deste xadrez? Serei eu o último peão, descartável, antes do xeque mate? Pára, cabeça! Pára de especular. O delírio da razão... Esses dois se entendem. Em briga de marido e mulher... Vou voltar para casa hoje mesmo. .............................................................................................. Ao cair da tarde, já apaziguada, dirigi-me ao aviário para desenhar. A passarada toda me saudava no caminho, e a Harpia parecia esperar-me. Encontrei o Jeová, cuidando da comida dos pássaros. Deu um riso alegre e seu rosto iluminou-se. O gigante parece mesmo gostar de mim... Disse: — Senhorita Alma, não vou abrir a jaula, não senhora. Pode desenhar à vontade, mas deixa eu olhar um pouco. Parece mágica o jeito que a senhora faz isso. — Está bem, Jeová, disse eu. Mas esse bicho parece estar bem empanzinado, com um macaco no bucho, não é mesmo? Um macaco por dia, Jeová? Haja macaco!.. Jeová olhou-me intrigado, estranhando meu sarcasmo. Pareceu desconcertado, mas logo dando aquela risadinha de velho escravo fiel, sentou-se perto e ficou observando-me desenhar. —Jeová, — perguntei – como você conheceu o seu patrão, posso saber? — Ah! Dona Alma. Isso é uma longa estória. Meu patrão é um homem aventureiro. Agora é que ele está meio acomodado. Mas se a senhora soubesse o que passamos juntos por esse Brasil grande... Foi num garimpo, lá em Mato Grosso. Esse homem descobriu tanto ouro que lhe deram o apelido de mercúrio. Atraía tudo pra ele mesmo. Separava o cascalho, do tesouro, como se tivesse nascido pra isso. Tanta sorte despertou a inveja dos outros. Ele seria certamente morto naqueles dias. Mas ele comprou a minha liberdade com uma pepita grande e meu credor me libertou, depois de eu estar há dez anos naquele inferno. Jurei servir e proteger ele com a minha vida. Fugimos juntos por cima de dois ou três cadáveres, a senhora me entende. “Carreguei ele” ferido nas costas, no meio da floresta e descemos um rio, com ele deitado no fundo da canoa roubada. Ele delirou durante dois dias no fundo daquela canoa sobre o rio e na areia das praínhas durante a nossa fuga. Foi esse seu delírio que nos aproximou. Eu vi a alma dele nesses pesadelos e o que eu vi não me desagradou. Cada um solta o que tem no seu inferno, e esse é um homem atormentado, mas bom como uma criança, dona Alma. Nunca “vi ele”! odiar de verdade, nem levantar uma palavra ruim para alguém. É como se fosse um daqueles professores de escola, só que melhor. Ele não ralha, nem pune ninguém, mas tem uma autoridade, uma força que vem de dentro. Perto dele eu sou fraquinho, dona Alma, não sei se a senhora me entende. Meus olhos marejaram um pouco. Naquele momento resolvi permanecer até o fim da minha missão. Por alguma razão maior conheci estas pessoas. Há uma lição aqui, a aprender, e à artista cabe fazer a sua obra, dar o que tem. Lembrei-me da frase de um amigo perspicaz: “ O talento faz o que quer, o gênio faz o que pode...” Em certo sentido, há um gênio em todos nós, na Humanidade. Fazemos o que podemos. Essa é a glória do Homem e sua tragédia. Mas pára de filosofar, Alma, que você é só uma artista. Faça o seu desenho, o melhor que puder e o resto lhe será acrescentado... Mostrei o resultado ao Jeová e ele ficou um tempo dando aquela risadinha, deliciado. Dizia: “—Tal e qual, dona Alma, hi, hi, hi...Veja só... É ela! Como é que pode? Com tão pouca coisa...” Presenteei o esboço ao Jeová que pareceu deslumbrado. Deu um beijo no papel e saiu abanando a cabeça e rindo. Senti-me gratificada. Mas sabia que ainda não era a obra definitiva. Recolhi-me ao meu quarto, para ler um pouco. Mas não consegui concentrar-me na leitura. Estou em fase de criação, ou de gestação, pelo menos. Estou absorvendo tudo isso ao meu redor. Mas nesse processo, também estou me confundindo com o que me rodeia. Há uma pequena dor que me incomoda. É a dor deste casal. Sua separação espiritual me abala como uma ruptura interna. Por quê sou assim? Queria poder unir as pessoas em torno de mim. Seria uma forma de egoísmo, disfarçada? No fundo o que quero é paz, harmonia, no pequeno mundo em que me cabe viver. .............................................................................................. Ouço um soluço dentro da noite, murmúrios, depois um lamento, choro copioso. Levanto-me da cama e somente de calcinha, corro até o corredor, sem pensar. Colo o ouvido à porta do casal. A porta se abre e Antônio puxa-me pelo pulso para dentro e aponta-me sua mulher. Chiara está jogada na cama de peignoir, com os pulsos ensangüentados. Corri em sua direção e estapeei-lhe, absurdamente, o rosto coberto de lágrimas. Está viva, naturalmente, e embora os lençóis estejam todos manchados, ela não está sangrando mais. Os cortes são superficiais e já apresentam esparadrapos sobre eles. Antônio está furioso, fora de si. Aponta-nos com os dedos e diz: — Vocês mulheres são loucas! Não entendo! Não aceito! Veja isso... É demais! Alma, cuide dessa maluca. Usou esta faca, mas antes tentou matar-me. Não agüento mais!... Avançou um pouco em nossa direção, e instintivamente cobri Chiara com meu corpo como se ele fosse agredir-nos. Fuzilei-o com os olhos e ele parou desconcertado e olhando-nos fixamente, em silêncio, voltou-se e saiu para o jardim. Chiara soluçava em meu peito. Meus seios estavam manchados de seu sangue, que ela lavava com suas lágrimas. Murmurava: Alma, Alma, leve-me com você! Vamos fugir, vamos fugir! Esse homem nos matará... com seu desamor. Eu sei, eu sei. Não se deixe enganar. Eu o conheço. Ele é cruel... como a Harpia. Estamos todos sob suas garras. Não se iluda, Alma, para isso ele a chamou. Precisa de novas presas. Sempre foi assim. Afastei-a um pouco, olhando-a bem nos olhos. Parecia realmente apavorada. Temia a ele ou a si mesma? Alguma coisa precisava ser feita. Sentei-me na poltrona meditando, os olhos fixos nos dela. – Chiara, isso tem que acabar. Sim, levo-a comigo, para o meu ateliê. O tempo que você necessitar. Vocês dois precisam ser apartados, por enquanto. O amor de vocês está doente. É isso...vocês estão doentes. Nada mais que isso. Não nos deixemos exaltar por essa loucura toda. Não há mistérios aqui. Recuso-me a aceitar uma tragédia, neste caso. Vamos, faça sua mala. Vamos partir bem cedinho. Jeová nos levará. Voltei para o meu quarto para fazer a mala, o que fiz rapidamente, colocando a pasta com os esboços por cima. Encontrei Chiara no corredor com uma valise, surpreendentemente pequena. Deve estar realmente assustada, para partir assim às pressas. O que, realmente, se passou entre eles? Tenho graves desconfianças... Jeová já está a postos diante do Mercedes. Ela deve tê-lo chamado por algum interfone em seu quarto... Parece um pouco perturbado, triste, mas compenetrado de sua função. Abre-nos a porta e põe nossa bagagem no porta malas. Nem sinal de Antônio. Podemos partir. Rezo para que ele não apareça agora. O carro pega a estrada em direção à porteira, distante da casa. Ao parar diante dela para abri-la, somos interceptados por Antônio a cavalo, com a sua grande luva e a Harpia encapuzada, empoleirada em seu braço. Faz-nos um gesto apontando a casa. Fica claro que quer que voltemos. Na verdade é uma ordem...e a Harpia não está ali à toa. Amedrontadas estamos as duas, mas eu estou ao mesmo tempo furiosa. Quem Antônio pensa que é? Algum senhor feudal? Jeová volta de marcha ré, até o cascalho diante da varanda. Descemos as duas com o rabo entre as pernas, por assim dizer. Mas logo, recobro-me e enfrento Antônio e sua águia, gritando: — Pare com isso, Antônio, você não tem o direito de nos reter aqui. Você está nos ameaçando com esse monstro? Guarde a águia! O que você quer? Não somos suas prisioneiras! Ou somos? Antônio tocou seu cavalo para cima de nós, de um lado pro outro como se faz nas comitivas, tocando as rezes, e fez-nos correr, humilhadas e assustadas para dentro. Sua gargalhada fechou o episódio. .............................................................................................. Sentadas as duas na minha cama, derrotadas, por enquanto, entreolhamo-nos envergonhadas. Depois de um longo suspiro, Chiara sorriu tristemente, e voltando seu rosto para mim, ergueu meu queixo com os dedos e olhando meus lábios aproximou os seus num longo beijo, suave, profundo. Senti a nossa força de mulheres, correr nossos corpos como uma onda. Em seguida estava deitada com ela cobrindo-me com seu corpo, lambendo-me suavemente, com beijinhos intermitentes. Abandonei-me. Era tudo o que havia a fazer. Seria essa a nossa vingança? A revanche do harém... O sultão que se cuide com a mulherada a sós. Sorri com esse pensamento, e correspondi aos beijos de Chiara. Logo estávamos nuas e ofegantes, entredevorando-nos apaixonadamente. Era preciso que nos amássemos de verdade, para que nossa vingança fosse completa. Sabíamos disso e sentíamo-nos apaixonadas. Isso nos comoveu e nossas lágrimas se confundiam. Estávamos todas molhadas... Parecia querermos entrar uma dentro da outra pelos nossos lábios de baixo. Praticamente desmaiamos uma de cada lado entre nossas pernas. Melhor assim. Antônio testemunharia nosso sono vaginal, uterino, adulterino... .............................................................................................. Dormimos por horas, não sei quanto tempo. Acordamos cobertas por um lençol de seda, sinal de que alguém nos observara em nosso sono saciado. Seria Antônio, ou a empregada? Essa se escandalizaria. Não, isto era bem de Antônio, afirmou-me Chiara. Na verdade, a cena o excitara. Como vingança aquilo era um fracasso. Desconfiei de Chiara, que sempre soubera disso...já devia ter passado por essa experiência, nas mesmas circunstâncias. Devo estar sendo usada por estes dois. Este pensamento fez-me estremecer. Mas... eu, já estava apaixonada por Chiara, e sou fiel às minhas paixões. Olhei-a tristemente, passando minha mão no seu rosto e resolvi entregar-me aos acontecimentos. Olhava o belo rosto de Chiara, seus lábios entumecidos de beijos, e pensava que ,na verdade, tudo fazia sentido, que não há gratuidade na vida, e quem nos beija assim, nos merece. Queria abandonar-me até onde minha dignidade se preservasse, até onde minha auto estima suportasse. O resto... A empregada veio chamar-nos para o almoço. Como boas meninas nos arrumamos e penteamos. Queríamos estar maravilhosas. Isso foi fácil, pois nossos olhos brilhavam e nossos lábios estavam aflorados, túmidos. Nossa sensualidade estava à flor da pele, e devíamos ser vistas assim pelo nosso tirano. Antônio olhou-nos com um sorriso malicioso nos lábios. Serviu-nos champanhe. Nada perguntamos, sabíamos o que estávamos comemorando. Isso tudo nos divertia, aos três. Que grandes sacanas! Tivemos um repasto maravilhoso. Estávamos, surpreendentemente, na melhor das disposições. Chiara e eu nos olhávamos o tempo todo, flertando. Antônio parecia deliciado com isso. Percebi, de repente, que através de sua mulher ele também me tinha. Possuía-me indiretamente, espiritual e carnalmente, ao mesmo tempo e carnalmente, ao mesmo tempo. Acabávamos sempre fazendo o seu jogo. O homem era poderoso, em sua psique inquebrantável, na sua malícia inocente. Antônio nada dizia, mas seu silêncio era jocoso, brincalhão e sedutor, ao mesmo tempo. Quando afinal abriu a boca, disse: —Estou feliz por vocês. Esta casa precisa de amor e leveza. Duas mulheres são mais leves que uma, quando há tesão na jogada. Lembrei-me da frase de Nietzsche: “As grandes coisas exigem que não se fale delas. A menos que se fale delas com grandeza. Com grandeza quer dizer: com cinismo e inocência.” Imediatamente perdoei Antônio. Decididamente ele estava à altura das circunstâncias e entendi o culto que Jeová lhe fazia. Esse homem era forte e não podíamos derrotá-lo facilmente. Muita água haveria de rolar. .............................................................................................. Ao cair da tarde, eu já passeava com Chiara de mãos dadas pelo jardim. Visitamos os pavões, fazendo piadinhas, comparando-os ao Antônio. Ríamos muito, estávamos encantadas com nossa cumplicidade recém descoberta. Sentíamo-nos mais seguras e beijávamo-nos a todo momento. Sabíamos que só estaríamos fortes se investíssemos de verdade nesse amor nascente. Quem poderia contra duas mulheres assim? Eu já pensava em viver com ela para sempre, em meu ateliê. Quanta loucura! Esquecia que esta mulher era rica, fazendeira, e conhecia o mundo. Meu universo seria risível para o seu cosmopolitismo. Ela não suportaria mais de um mês a bagunça do meu ateliê, e o cheiro de tinta. Mas eu estava entregue à fantasia de uma relação ideal. Neste momento chegamos perto sem querer, da gaiola da Harpia. Estremecemos. Entreolhamo-nos, confusas. Caímos de nossa nuvem. O monstro nos fitava, as duas, com seus olhos abissais. Demo-nos as mãos e saímos correndo como duas crianças assustadas. ..................................................................................... À noite, Chiara veio de camisola para o meu quarto para dormirmos juntas. Tentaríamos ignorar Antônio, que dormiria só, esse era o seu castigo. Na verdade, morríamos de curiosidade de saber como ele estaria em seu quarto. Acabamos adormecendo, abraçadas, mas lá pela madrugada percebi estar sozinha. Chiara não estava mais comigo. Levantei-me, nua, e fui novamente escutar à porta do quarto deles. Ouvi nitidamente os gemidos e suspiros de êxtase de Chiara, empurrei a porta que estava apenas encostada e vi-os na cama em transportes de prazer. Chiara estava de quatro, e Antônio a penetrava por trás, com sofreguidão. Chiara olhou-me com o olhar esgazeado, os lábios abertos, inchados de luxúria. Permaneci um momento fascinada, enquanto Chiara estendia-me um braço convidando-me a juntar-me a eles. Hesitei por uma fração de segundo, mas o amor próprio venceu, a duras penas, e voltei correndo para o meu quarto. .............................................................................................. Acordei após uma noite agitada, cheia de sonhos estranhos. Chiara estava ao meu lado adormecida e por uns momentos eu já não sabia se o que eu vira, acontecera mesmo, ou eu sonhara com aquilo. A sensação foi tão confusa, levantei o lençol do seu corpo nu e aproximei minhas narinas do seu sexo. Senti o forte cheiro de esperma e o mundo se tornou real novamente, com a sua nota caótica e crua. Atirei o lençol ao chão e deixei-a ali, exposta. Entrei no banheiro para um banho demorado. Deveria ir embora de uma vez? Estava confusa. Ao sair do banho encontrei Chiara sentada, nua, na cama, olhando-me enigmaticamente. Estendeu-me a mão para que me juntasse a ela. Queria abraçar-me. Embora banhada e refrescada, não resisti. Seu cheiro, misturado ao de Antônio, excitava-me e deixei-a fazer comigo o que quisesse. Beijava-me docemente, acariciando-me os seios, murmurando: “meu amorzinho, meu amor, minha querida, como você é bela...” Sugou-me longamente os mamilos e introduziu os dedos no meu sexo ensopado. Não podia resistir-lhe e sabia que quando Antônio me quisesse, também não poderia lutar, pois já conhecia o seu cheiro. Tinha caído num processo tentatório, perante o qual não tinha defesa. Meu sofrimento existia apenas por saber que aquilo tudo tinha um fundo falso, que eu não sabia definir. Fatalmente eu sairia ferida daquilo tudo. Assim pensava, ao mesmo tempo que tomada pelo prazer. Mas, como sempre acontece comigo, apaixonada, entrego até a alma, no limite da perdição. Deixei-a empolgar-me toda. Ela introduzia a língua ávida em todos os meus orifícios e desmanchou-me em êxtase e ternura líquida. .............................................................................................. Fiquei muito tempo largada na cama, numa doce letargia, antes de voltar ao banheiro para banhar-me novamente. Chiara estava no chuveiro, que de tão quente transformara o aposento numa sauna vaporosa. No meio daquela bruma, avistei-a , acariciando-se com o sabonete. Que bela mulher era Chiara! Tudo isso tinha que acontecer. Pessoas como nós, belas, sensuais, não podem passar incólumes entre si. Fatalmente nossos corpos e almas clamariam uns pelos outros. Rompidas as barreiras, agora nos restava desfrutar de nossa juventude e beleza, de nossos corpos e almas inocentes, na verdade. Que mal havia em nós? Certamente nenhum, pelo menos em nós duas. Já em Antônio, eu tinha minhas dúvidas. Esse homem era mais complexo, e o ponto cruel, existia no meio de sua pupila que refletia a Harpia, o monstro sagrado. Arrepiei-me toda e caminhei nua na bruma em direção à minha nova deusa. ............................................................................................. Dias se passaram em doces devaneios e suaves prazeres. Antônio parecia como sempre calmo, mas obstinado. Revelou-nos que sua meta era libertar a águia, de modo que ela, domesticada, não desaparecesse. Queria que ela voasse solta por aí, caçasse e voltasse sempre para um poleiro de aço, que mandou construir em frente à casa no meio do gramado. O plano era arriscado, alguém poderia abatê-la em pleno vôo, sabem como são esses caboclos. O animal era assustador, e mesmo domesticado, tinha um aspecto ameaçador. Depois, não merecia absoluta confiança, com aquele bico e garras mortais. Como poderiam receber crianças naquela casa? E gatos, e cãezinhos? Não, aquilo era um monstro, na verdade, e o plano me parecia absurdo. Antônio, com isso, mostrava um universo interior que não incluía os pequenos seres frágeis, as doces criaturinhas de Deus. Lembrei-me do poema “O Tigre”, de William Blake: “ Quem te fez, fez também o Cordeiro?” Recitei o poema de Blake para ele, que mostrou-se deliciado, mas não da forma que eu esperava. Ficou obcecado e pediu-me que o escrevesse num papel de carta. Quanto à Chiara, ia do seu leito para o meu, regularmente como uma peregrinação metódica em que trazia as relíquias e os aromas, de um para o outro. Uma vez depôs um montículo de pêlos pubianos de Antônio sobre o meu seio. O pior, ou melhor, é que fiquei enternecida e arrepiada ao mesmo tempo. Seu fetichismo desenvolvia-se a olhos vistos, e tratou de levar os meus pentelhos louros, também, para o outro, cortados enquanto eu dormia. Estaria enlouquecendo, docemente? Que se passava no seu coraçãozinho doente? É claro que eu sabia, ou, pelo menos, pressentia. Depois de dominar o meu espírito pelo amor, queria presentear-me ao seu amado, e ele a mim. Sua meta também era libertar uma “águia”, domesticada, de tanto medo de perdê-la. Eles eram iguais, ambos tomados pela mesma loucura, eu percebia, mas nada podia fazer para deter o processo. Na verdade, nem queria deter nada. Ansiava por um desfecho natural, de Destino, mas não fatídico, (essa palavra sempre me amedrontou). Lembrei-me do fato de que nunca consultei uma pitonisa ou vidente, nunca me leram as cartas ou a mão, embora eu não descarte essa possibilidade, um dia. Mas prefiro viver somente por hoje, coisa que aprendi com um amigo alcoólatra, que conseguiu, com isso, milagrosamente deter a sua doença. Naturalmente, eu me encaminhava, espiritualmente para o leito de Antônio. Só faltava o meu corpo me acompanhar, o que aconteceu numa noite após deixar Chiara adormecida em meu leito. Nua, caminhei pelo corredor escuro como breu até ser apanhada por mãos potentes que me dominaram e carregaram nos braços, como o Bicho Manjaléu, da estória infantil. A sensação de ser carregada por aqueles braços fortes, no escuro, foi indizível, e a penetração foi tão maravilhosamente invasiva, que explodi num orgasmo profundo, infinito, onde avistei todas as estrelas da Via Láctea, num fenômeno de Alef, inexprimível. Acordei muito tempo depois com dores no corpo. Meu sexo e meu ânus doíam. Presumo que fui, na verdade, estuprada, embora por consentimento. Mas estava tão plenamente satisfeita, que espantei as dores em minutos. Corri para o meu quarto e dei de cara com o Jeová no corredor carregando uns trastes. O gigante negro estatelou os olhos sobre o meu corpo nu, por uns segundos, depois fechou-os bem e disse: — Senhorita Alma, eu nada vi! Para mim a senhorita é como um cordeiro, toda cobertinha de lã... Deixe-me passar, que não abrirei o olho! Sorri, fazendo um esforço para não fazer sequer o ruído de uma risadinha, que pareceria vulgar e tentador, e esgueirei-me junto à parede para o gigante passar. No meu quarto, permaneci um tempo envergonhada. Caíra eu do pedestal diante do fiel servo gigantesco e puro? Talvez sim, talvez não. Minha nudez nada tinha de ofensiva, disso estou certa. Tenho as formas de uma ninfeta, embora já tenha trinta anos. Mas sei que esse não é o ponto. Um homem simples como o Jeová é sempre muito conservador. Mas suas palavras, lembrando-me delas, me tranqüilizaram. Sorri mais uma vez, enternecida com a imagem do cordeirinho. Queria beijar aquele negrão nas faces, meu doce Jeová... Mas, a verdade é que ele me vira sair nua do quarto de Antônio, o que para ele seria puro adultério, já que a palavra “promiscuidade” não existiria certamente no seu vocabulário. Sua cabeça não pararia no cordeiro, eu pensava. Mas afastei esses pensamentos. Jeová era um homem mais puro que os outros, disso eu já tivera provas. Tratei de banhar-me e vestir-me e fiz um esforço para ir trabalhar diante da jaula do avejão, coisa que começava ser penosa, pois meu corpo agora só queria o prazer, a cama, as sensações fortes, tácteis, e a ave me horrorizava como o polo doloroso da vida, com sua crueza e crueldade, não obstante sua beleza perfeita. Permaneci desenhando com dificuldade por alguns minutos. Meu espírito divagava. Imagens de corpos nus se imiscuíam em meus pensamentos, e o rosto redondo de Jeová, aparecia, alternadamente com as outras imagens, de Antônio, de Chiara, e da Harpia, com seu grito mudo, de bico aberto e língua fina e pontuda, horripilante. Chegara o Delírio da Razão, goyesco, que produz monstros. Larguei o material de desenho ali mesmo e saí correndo por entre as gaiolas, no meio do alarido súbito de toda a passarada. Sentia-me perseguida por milhares de pequenas aves que me bicavam o corpo todo, e a cabeça. Defendia instintivamente os olhos, e de repente caí e não vi mais nada. Fui carregada para dentro como uma pluma, facilmente, em braços que eu não quis saber a quem pertenciam. Recusava-me a abrir os olhos, como uma criança e assim fiquei muito tempo cobrindo o rosto com os punhos e os braços. Ouvia vozes, súplicas, comandos, mas resistia cerrando os olhos, fortemente, até que senti os dedos compridos e finos de Chiara afastando meus punhos e abrindo meus olhos com dois dedos de cada mão. Estava séria, mas logo sorriu dizendo: — “Alma, não se esconda. Precisamos de você, princesa. Se você fecha os olhos, deixamos de existir, e então o que será de nós, perdidos no Nada?” Notei a presença sorridente de Antônio, e o rosto espantado de Jeová, que parecia não entender nada do que se passava. Na verdade, era o único que parecia consternado. Agarrei Chiara e a abracei numa explosão de lágrimas, puxei Antônio para perto de mim para abraçá-lo igualmente. Queria fazer isso com Jeová também, mas o seu senso de hierarquia o fez afastar-se discretamente. Ah! Como eu amava estas três pessoas... Naquele momento eu só sabia disso, só me cabia isso: amá-los, amá-los, incondicionalmente, e exorcizar todo o mal que porventura nos rondasse. Proteger-nos a todos com o meu amor, nem que para isso eu precisasse ser devorada pela Águia. Meu delírio ainda me tomava, e assim fiquei: em estado de amor e êxtase heróico. Entre a paixão erótica e o sacrifício sublime, por três dias e três noites, no leito. Chiara e Antônio se desvelaram à cabeceira, revezando-se. Até que voltei a mim, uma manhã, subitamente. Estava sozinha num quarto muito branco que eu desconhecia. Parecia um quarto de menina, sim, tudo ali era meio infantil. Os quadrinhos nas paredes... Um diplominha de primeira comunhão: “Lembrança preciosa...” e umas bonecas no chão, num canto. Onde estou, pensei eu, estarei no céu, voltei no tempo? Olhando pela janela de cortininhas xadrez, percebi que ainda estava na fazenda, na casa de Chiara e Antônio. Chamei-os e Chiara entrou sorrindo e estendendo-me os braços: — “Bem vinda, nossa hóspede fujona! Você voltou, afinal. Que susto nos deu!.. Seus caminhos eram assustadores e não pudemos segui-la. Só nos restou esperar o seu retorno. Você voltou, querida, estou vendo.” (abraçou-me comovida e alegremente). Olhei bem o seu rosto e ela já não me parecia mais doente do que eu. Na verdade, estava feliz e fresca como uma flor de primavera. Pensei imediatamente na relatividade de tudo e sabia de antemão que Antônio apareceria naquela porta, mais forte e tranqüilo do que nunca. E sua aparição me seria grata, sem sombra de crueldade, pois tudo não podia ter passado de puro delírio da minha sensibilidade mórbida. Sou eu, sempre eu, não as pessoas, pensei... Elas nada tem de terrível, sou eu que as amo demais, que me apaixono, enlouqueço e sofro. Sempre foi assim, eu pensava. Nesse momento, Antônio entrou realmente. Apareceu na porta do quarto. Belo, forte, sorridente, seguro. Que homem! (pensei)... Estendi-lhe a mão, e ele, galantemente a beijou, segurando-a nas suas. Lembrei-me de que esse homem me possuíra quase com violência, no escuro, e esse pensamento ruborizou-me como uma noiva recém deflorada. Chiara notou esse movimento interior e sorriu afagando-me o rosto. Eu acordara ainda amando esses dois, e isso não tinha mais jeito. Senti que sofreria a separação inexorável que viria, a qualquer momento. Parecia-me não poder mais viver sem eles. Porque sou assim, tão dependente dos meus amores? Porque morro cada vez que os perco? Haja coração, haja alma! (pensei). Queria engoli-los, aos dois, e mais ao Jeová, essa é que é a verdade! .............................................................................................. Reunimo-nos todos diante da jaula da Águia. Cercada pela pequena platéia dos personagens deste conto, sentei-me no chão, em posição de lótus e coloquei a folha de papel branco, no solo, entre os meus joelhos. Então, molhando o pincel de bambu no pote de tinta nanquim, com dez traços, sem hesitação, fiz o desenho definitivo da Harpia. FIM